Os Negócios de Milhões da Canábis em Portugal. E a Economia Corre Mais Rápido Que o Preconceito
by Eunice Veloso on Jun 04, 2026
Em Portugal, a canábis desperta frequentemente reacções conservadoras.
O preconceito ainda é uma realidade palpável, manifestando-se de forma acentuada no seio da própria classe médica, que demonstra ainda grande relutância e resistência na prescrição de medicamentos baseados nesta planta.
Todavia, os dados económicos revelam uma realidade paralela surpreendente: o volume financeiro gerado por este sector em território nacional é francamente superior a qualquer barreira cultural ou preconceito social. O dinheiro fala, invariavelmente, mais alto.
A canábis transformou-se num negócio de milhões.
O país converteu-se num pólo de atracção central para investidores estrangeiros — maioritariamente oriundos de geografias como os Estados Unidos da América e o Canadá —, que trouxeram capital e contribuíram para que Portugal se posicionasse em lugar de destaque no mapa internacional da tecnologia agrícola e farmacêutica.
Mas não foram só os investidores estrangeiros a fazerem a aposta no “ouro verde”: também grandes grupos económicos portugueses têm investido activamente na fileira.
Esta conjugação de esforços colocou o país numa posição de extraordinário relevo global.
Portugal é hoje o primeiro maior exportador europeu de canábis medicinal, tendo como principais destinos de exportação mercados exigentes como a Alemanha, a Polónia, a Estónia, o Reino Unido e a Austrália.
À escala global, o país ascendeu à posição de segundo maior exportador mundial, sendo apenas superado pelo gigante Canadá.
Em 2025, o volume de negócios da canábis medicinal em Portugal fixou-se firmemente entre os 60 e os 80 milhões de euros anuais em exportações, traduzindo-se no escoamento de mais de 30 toneladas de flor de canábis de qualidade farmacêutica para o estrangeiro.
O panorama corporativo nacional é liderado por empresas com forte injecção de capital estrangeiro, tais como a Gro-Vida (em Tavira), a Somaí Pharmaceuticals (com actividade no Carregado e Sintra) e a Curaleaf Ibéria.
Contudo, a tradição nacional também marca presença através de referências como o grupo farmacêutico Iberfar, fundado em 1924.

Outro caso notável é o da Cânhamor, empresa produtora de blocos de construção ecológicos à base de cânhamo, fundada em solo luso através de uma sociedade que junta dois israelitas e dois palestinianos em equipa.
A empresa viabiliza assim, em território nacional, um projecto industrial e comercial partilhado que os contextos geopolíticos dos países de origem dos seus fundadores falham em concretizar.
Não se pode esquecer a histórica Terra Verde, a pioneira a obter a licença de cultivo em Portugal, inicialmente constituída pelo antigo Ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, em sociedade com o israelita David Yarkoni, e vendida em 2019 ao grupo britânico EMMAC.
A chave para atrair tamanha avalanche de investimento reside essencialmente em dois factores: as condições climatéricas ímpares de que Portugal dispõe e um quadro legislativo que, embora exija um processo de licenciamento complexo e rigoroso junto do Infarmed, prima pela transparência.
O cultivo é feito em estufas, o que garante um controlo mais rigoroso da qualidade e de todo o processo.
O crescimento desta indústria funciona ainda como um efeito multiplicador na economia, gerando verdadeiras "bolhas de crescimento" indirecto.
Observa-se hoje uma procura por cursos técnicos superiores especializados na produção e processamento de canábis, novos ramos de investigação medicamentosa, biociências, gestão agrícola avançada e o desenvolvimento de materiais sustentáveis, como os blocos de cânhamo para a construção civil.
É fundamental sublinhar que a legislação portuguesa permanece clara e inequívoca: a canábis para fins recreativos continua a ser ilegal.
Quem pretenda posicionar-se legalmente neste mercado em expansão dispõe de seis vias principais:
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Cultivo de canábis para fins medicinais: Produção estritamente regulada e direccionada à indústria farmacêutica.
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Cultivo de cânhamo industrial: Produção agrícola voltada para fins têxteis, de construção ou alimentares.
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Mercado secundário de produtos de cânhamo: Comercialização de produtos alimentares, cosméticos e derivados de CBD (lojas especializadas e headshops), dentro dos estritos limites legais.
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Mercado secundário de suporte e equipamentos: Fornecimento de sistemas de cultivo, vaporizadores, nutrientes, fertilizantes e sedas (grow shops).
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Investimento financeiro: Aquisição de acções de empresas cotadas que operam no mercado de capitais.
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Educação e especialização profissional: Integração no processo produtivo através da formação técnica em biotecnologia, saúde ou agricultura, colmatando a escassez de mão-de-obra qualificada neste sector emergente.
Referências:
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ECO Sapo (2024): "Exportações de canábis quase triplicam em 2024. Mais 150 empresas esperam autorização do Infarmed"
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SIC Notícias (Reportagem Especial, Maio 2025): "Ouro Verde: O negócio milionário – e legal – do cultivo de canábis para fins medicinais"
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Revista Visão / Exame (Julho 2019): "Canábis: Ângelo Correia vende Terra Verde e entra na britânica EMMAC"
Escrito com o apoio de IA / Imagem editorial conceptual gerada por IA.
AVISO: Este artigo tem carácter unicamente informativo e não deve ser interpretado como aconselhamento médico. Qualquer decisão relacionada com o uso de canábis medicinal deve ser tomada exclusivamente sob orientação e prescrição do seu médico assistente.