Canábis Medicinal Em Portugal: Um Gigante Da Exportação, Um Anão No Acesso
by Eunice Veloso on Mar 26, 2026
Portugal tornou‑se, nos últimos anos, um dos maiores centros europeus de produção e exportação de canábis medicinal.
O país exporta dezenas de toneladas por ano e movimenta milhões de euros, contribuindo significativamente para a economia nacional.
No entanto, há um paradoxo difícil de ignorar: menos de mil doentes portugueses têm acesso a estas terapêuticas, apesar de estarem legalmente enquadradas desde 2018.
Como é possível que sejamos líderes na produção, mas quase inexistentes no acesso interno?
A resposta é uma verdadeira “pescadinha de rabo na boca”: medicamentos caros, pouca prescrição médica, fraca disponibilidade nas farmácias e ausência de comparticipação. Tudo isto reduz a procura — e a baixa procura reduz ainda mais a oferta.
#1. Para Que Patologias Está A Canábis Medicinal Aprovada Em Portugal?
Segundo o Infarmed, a canábis medicinal pode ser prescrita quando os tratamentos convencionais não produzem os resultados esperados.
As indicações aprovadas incluem:
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Espasticidade associada à esclerose múltipla
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Náuseas e vómitos induzidos por quimioterapia
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Dor crónica (particularmente neuropática)
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Síndromes epilépticas graves e resistentes
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Anorexia e caquexia em doentes oncológicos ou com SIDA
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Glaucoma resistente a terapêutica convencional
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Síndrome de Tourette
Estas sete indicações constituem o enquadramento oficial para prescrição.
#2. Qual É O Impacto Da Terapêutica À Base De Canábis Medicinal Nos Doentes?
Os estudos internacionais e a experiência clínica mostram benefícios relevantes:
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Redução da dor crónica e melhoria da qualidade de vida
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Menos espasmos musculares em doentes com esclerose múltipla
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Redução de crises epilépticas em síndromes resistentes
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Melhoria do apetite e do bem‑estar geral em doentes oncológicos
Apesar disto, em Portugal o número reduzido de prescrições impede que estes benefícios cheguem à maioria dos doentes que poderiam beneficiar.
#3. Que Medicamentos De Canábis Medicinal Estão Aprovados Pelo Infarmed?
Actualmente, existem poucos produtos aprovados. Entre eles:
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Epidyolex (canabidiol) — aprovado para epilepsias resistentes, com possibilidade de comparticipação em casos específicos.
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Flores de canábis para vaporização, com diferentes teores de THC e CBD, aprovadas para algumas das indicações acima.
A oferta é limitada e, por isso, o acesso também o é.
#4. Quais São Os Principais Bloqueios Entre Os Medicamentos De Canábis E Os Pacientes?
Os obstáculos são vários e interligados:
Medicamentos caros e sem comparticipação
A maioria dos produtos não é comparticipada, tornando tratamentos prolongados financeiramente incomportáveis para muitos doentes.
Pouca prescrição médica
Muitos médicos hesitam em prescrever por falta de formação, receio de estigma ou por saberem que o custo é proibitivo para os doentes.
Baixa disponibilidade nas farmácias
Como há pouca procura, as farmácias não mantêm stock regular — e, sem stock, a procura continua baixa.
Ciclo vicioso
Pouca oferta → preços altos → pouca prescrição → pouca procura → pouca oferta.
#5. Os Hospitais Já Prescrevem Canábis Medicinal?
Sim, mas ainda timidamente.
Segundo dados recentes, os hospitais públicos estão a aumentar a utilização de canábis medicinal, sobretudo em áreas como neurologia e oncologia. No entanto, o número de doentes abrangidos continua reduzido.
#6. Conclusões: Como Quebrar O Paradoxo Português?
Portugal é um gigante na produção e exportação de canábis medicinal, mas um anão no acesso interno. Para reduzir esta dissonância, dois passos são essenciais:
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Aprovar e comparticipar mais produtos
A comparticipação é apontada por especialistas como o caminho mais eficaz para garantir segurança, acessibilidade e continuidade terapêutica.
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Incentivar os doentes a pedir informação e avaliação médica
Quanto mais doentes perguntarem, mais médicos prescreverão — e maior será o incentivo para farmácias e distribuidores manterem produtos disponíveis.
A canábis medicinal tem potencial para melhorar a vida de milhares de portugueses. O país já domina a produção; falta agora garantir que os seus próprios cidadãos beneficiem desse avanço.
Referências:
https://www.infarmed.pt/web/infarmed/canabis-medicinal
https://echoboomer.pt/portugal-segundo-maior-exportador-cannabis-medicinal/