A Herança da LUCA: A Canábis e a Ciência da Perseverança
by Eunice Veloso on Feb 12, 2026
À primeira vista, a palavra "perseverança" parece carregar um peso excessivamente humano.
Associamo-la a atletas que superam limites, a cientistas que não desistem de uma cura ou a figuras históricas que enfrentam adversidades.
Atribuir este característica a uma planta — um ser que não fala, não se move e parece apenas "estar" — pode soar a uma romantização excessiva. Mas será que é mesmo assim?
Talvez a nossa visão mude drasticamente quando confrontados com a biologia profunda.
A ciência moderna diz-nos que todos os seres vivos na Terra, das sequoias gigantes aos seres humanos, partilham o mesmo ponto de partida.
Falamos da LUCA (Last Universal Common Ancestor), a nossa última ancestral comum universal. Esta forma de vida primitiva, um organismo unicelular semelhante a uma bactéria, viveu há biliões de anos e é a mãe de todo o ADN existente.
Quando percebemos que o código genético de uma planta de canábis descende da mesma fonte que o nosso, a barreira entre o "humano" e o "vegetal" torna-se menos rígida.
A perseverança não é apenas uma virtude moral; é uma estratégia de sobrevivência biológica que herdámos da LUCA. E se há planta que personifica esta herança de resiliência, essa planta é a canábis.
#1. Canábis: Uma Viagem de Milénios ao Lado da Humanidade
A perseverança da canábis não se mede apenas em dias de crescimento, mas em milénios de história escrita.
O registo mais antigo de que temos conhecimento remonta a 2737 a.C., quando o imperador chinês Shennong, considerado o progenitor da medicina chinesa, incluiu a canábis no seu tratado sobre ervas medicinais.
Desde então, a planta tem resistido a perseguições políticas, mudanças de eras geológicas e proibições globais.

Ela perseverou, mantendo a sua utilidade medicinal e industrial intacta ao longo de mais de 5000 anos.
Esta longevidade não é um acaso; é o resultado de uma espécie que se recusa a desaparecer, adaptando-se a cada nova civilização e ambiente que encontra.
A canábis persevera porque está programada para tal.
#2. A Mestra da Adaptação Climática e a Luta pelo Planeta
A canábis é o que os biólogos chamariam de uma espécie cosmopolita.
A sua capacidade de perseverar em condições climáticas opostas é fascinante. Encontramo-la a crescer espontaneamente nas encostas gélidas e áridas do Hindu Kush - cordilheira no Afeganistão e Paquistão Ocidental, onde desenvolve resinas densas para se proteger do frio e da radiação, e em climas tropicais húmidos, onde se estica vigorosamente para procurar o sol entre a vegetação densa.
Mas a sua perseverança hoje vai além da sobrevivência individual: ela é uma aliada vital na recuperação climática.
A canábis é excepcionalmente eficaz na captura de CO2 da atmosfera através da fotossíntese, fixando o carbono no seu tecido de forma mais rápida do que a maioria das florestas temperadas.
Ao cultivar canábis, não estamos apenas a obter uma planta útil; estamos a utilizar um organismo que persevera contra o efeito de estufa, ajudando a regenerar o próprio ar que respiramos e a limpar solos contaminados (fitorremediação).

A canábis é capaz de sequestrar mais carbono por hectare do que muitas espécies de árvores.
#3. O Escudo Biológico: Resistência a Pragas e Doenças
No mundo natural, sobreviver significa estar numa negociação — ou guerra — constante contra microrganismos, fungos e insetos.
A canábis demonstra uma tenacidade incrível neste campo. Graças ao seu sistema imunitário robusto, consegue muitas vezes prosperar em solos onde outras culturas agrícolas sucumbiriam facilmente.
Esta resiliência natural reduz a necessidade de intervenções químicas pesadas e pesticidas, tornando-a uma das plantas mais sustentáveis para o futuro.
Ela "sabe" como lutar pela sua vida, uma característica de sobrevivência pura que, mais uma vez, nos remete para aquela força vital iniciada pela LUCA nas fontes hidrotermais dos oceanos primordiais.
#4. Plasticidade e Fenotipologia: A Arte de se Transformar
A perseverança da canábis é também visível na sua fenotipologia — a forma como as suas características físicas se manifestam de acordo com o ambiente.
Esta planta é um verdadeiro camaleão genético. Se o solo for pobre em nutrientes, ela adapta o seu sistema radicular para explorar camadas mais profundas; se a luz for escassa, altera a arquitectura das suas folhas para maximizar a captação de fotões.
Esta capacidade de "mudar de rosto" para não sucumbir é a prova máxima de resiliência. Ela não se limita a aceitar um destino adverso; ela molda a sua própria biologia para o vencer. É a inteligência da natureza em plena ação.
#5. Mecanismos de Defesa: Química ao Serviço da Vida
Por fim, aquilo que nós muitas vezes procuramos na canábis para fins terapêuticos — os seus canabinoides (como o CBD e o THC) e os seus terpenos — são, na verdade, as suas armas de perseverança.
O THC, por exemplo, funciona na planta como um protector solar natural contra a radiação UV intensa e como um repelente para herbívoros. Os aromas intensos dos terpenos servem para afastar predadores ou atrair polinizadores específicos.
Toda a complexidade química que hoje estudamos em laboratório é o resultado de milhões de anos de evolução e de uma vontade férrea de persistir. A planta não criou estas substâncias para o usufruto humano, mas sim para garantir que, aconteça o que acontecer, a sua linhagem continue.
Conclusão
Olhar para a canábis é, de certa forma, olhar para um espelho muito antigo. Partilhamos com ela a mesma base química, o mesmo impulso de vida e a mesma resiliência herdada daquela mãe microscópica, a LUCA, que se recusou a deixar a chama da vida apagar-se num planeta Terra primordial e hostil.
A perseverança não é um exclusivo da consciência humana; é o fio condutor de toda a biologia terrestre.
E a canábis, com a sua história milenar, a sua adaptabilidade climática e os seus complexos mecanismos de defesa, é talvez uma das nossas melhores professoras sobre o que significa, verdadeiramente, habitar e resistir neste mundo.
Referências:
Escrito com a ajuda a IA
https://www.nature.com/articles/nmicrobiol2016116
https://www.britannica.com/topic/Shennong
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7605595/
https://agriculture.ec.europa.eu/farming/crop-productions-and-plant-based-products/hemp_en
https://www.cambridgenetwork.co.uk/news/hemp-more-effective-trees-sequestering-carbon